O Trocadilho do Cano Propriamente Dito
O narrador se restringirá a fazer algumas observações exteriores, deixando que o personagem descreva o episódio por dentro, exagerado em seus pormenores, mas não inverossímil.
“Eu sou motoboy, um motoboy de Itapê – sabe lá o que é isso? –, dezoito anos, tinha muita vitalidade no pau, três vezes ao dia, fora as vezes com as minas, um motoboy de Itapê sabe como é.
“Mas aconteceu comigo um estrago, um absurdo, justo quando minha Carolinha ia me dar, naquele sábado sinistro, porque eu tinha traçado sua irmã e todas as amigas, ela não aguentou, cedeu, fui foda, meu, mas gostava era dela pra caralho, Carolinha, sonhava até casar. E por que comi a irmã, além do óbvio? Porque tava cansado só de sacanagens românticas dentro do carro, queria aquela bocetinha e a mina não entregava, fazia de tudo mas não dava o principal, então comi a irmã pra causar, ela ficou puta mas deu certo, prometeu que ia me dar no tal sábado, estava jurado, eu fiquei louco, nessa hora quem é homem sabe como a gente fica, qualquer buraco que se vê alucina, qualquer um. (Eu já matei muita galinha, parei porque meu pai ficou puto, acabava matando as bichinhas, mas mula, cachorra e bezerra eu comia com frequência, na moita, é claro, a cidade não sabe, ao menos isso ninguém sabe.)
“Mas na sexta eu necessitado, faltava um buraco, porra, marquei, fui trouxa, peguei no paiol a porra de um cano ¾, desses de plástico não, um velho, de ferro, alucinei, quem tem pau sabe, fiquei cego, cara, cego, peguei molhei e enfiei, puta merda, que desgraça, travou, não saía mais. Não saía, não saía, eu disse calma, joguei óleo pela extremidade e nada, esperei amolecer e nada, puta merda – o cano tinha uns dois palmos. Como eu tiro, que é que faço, meu Deus? Também rezei pra caramba. Pus gelo pra abaixar, água quente pra dilatar o ferro e nada, cara. Claro que pra isso tinha vestido a bermuda com o ferro dentro pra buscar o gelo e a água quente na cozinha, e doía muito, pra valer, e ficava aquela encrenca esticando a roupa, uma protuberância reta que eu disfarçava pra minha mãe não ver, fora meus irmãos – eu sou o mais velho. Aproveitei, peguei um pijama folgado e voltei pro paiol, aí então que eu pus o gelo, a água, e nada, mas isso eu já contei, chorava, cara, posso dizer que chorei muito. Porra, pensei (já tinha quase uma hora), no mínimo tenho que cortar o excesso, diminuir o peso, meu pau é grande mas dava pra cortar bem uns vinte e tantos centímetros do cano, pra aliviar o peso.
“Olha, também tive sorte no meio do azar, porque pelo menos meu pai guardava ali uma serrinha de metal – já pensou se não tivesse? Mas só uma serrinha solta mesmo, não achei o arco. Então fui na mão, cortando inhec-inhec, meu, no começo nem triscava. E minha mãe chamando pra janta. Era melhor me esconder e fiquei ali, dentro do paiol, na luz da lanterna. Não ia dar tempo antes do jantar, porque também a serra queimava a ponta do pau, tinha de ir devagar, acabei de serrar já eram umas nove horas, eu acho. Puta dor. Mas tinha de disfarçar.
“Levei bronca da mãe, do pai, dei uma desculpa lavada pelo atraso, só queria ir pro quarto. Comi pouco, os pais estranharam; ‘“você está vermelho!”’falou a mãe, ‘“o que aconteceu?”’, falou o pai. Nada, nada. Me enfiei debaixo da coberta e fiquei; minha última esperança era dormir, relaxar e o negócio sair. Mas levantei pra fazer xixi, putz, meu, o que doeu, um ardido, saía aos pingos pela boca do cano. Não podia dormir, ficava maquinando, rezando, e no meio da madrugada, naquele silêncio, sobreveio o sobressalto: e Carol, e amanhã? Nem se o cano sair vai dar. Como vou dispensá-la? Não posso, não quero nem chegar perto dela – pensava. Bem, uma hora dormi.”
O nosso motoboy acordou com aquilo encalacrado e, pelo inchaço do membro, mais preso do que nunca. Ficou de cama, como se estivesse doente, seus pais cuidando sem saber do quê. Dizia que a cabeça doía, deram-lhe novalgina, punham termômetro, traziam chazinho que ele, para evitar líquidos, jogava discretamente pela janela. À tardinha, Carol chegou de surpresa. É preciso que se informe aqui que Carol era menina de família, o que significa que vivia bem e seria um ótimo partido, já que o nosso personagem era um sitiante modesto, cuja propriedade ficava na periferia de Itapetininga. Por isso, pela perspectiva de um namoro sério para o filho, Carol foi sempre recebida pela mãe com muitos agrados, além do que também chegara em boa hora, para ajudar seu menino a sair daquele estado moribundo. Deixou, pois, a garota bem à vontade, que assim pode entrar repentinamente no quarto do namorado.
– Tá dodói, é?
– Putz, Carolinha, vá embora, por favor, não tem nada a ver você...
– Por quê? Não posso visitar meu namorado não?
– Não tô legal, não tô bem, não quero nem falar... Depois te procuro.
– Pô, justo hoje...
Carol estava decidida a dar e tinha que ser naquele dia, também ela esperara muito por isso, cabeleireiro, perfumaria, preparou-se a semana toda, e, se seu planejamento não contava com um namorado doente, pescou no ar que poderia acontecer ali mesmo, no quarto do rapaz; os sinais de cumplicidade daquela mãe foram evidentes, sentia-se livre e solta para a aventura. Enquanto o diálogo desencontrado corria, ela havia se sentado na beira da cama e, cheia de sensualidade e volúpia, ao mesmo tempo em que dizia “esqueceu que dia é hoje?”, metia a mão debaixo do cobertor direto naquele troço duro resguardado pelo pijama. O deslocamento que exerceu foi o suficiente para o nosso amigo desferir um berro de dor. Assustadíssima, a coitadinha bateu em retirada, levando consigo uma estranheza na mão; uma sensação do duro de um pinto diferente da de um pinto duro. Com o berro ecoando em toda a residência e a menina saindo dali aos prantos, seus pais invadiram o quarto a fim de passarem as coisas a limpo. O motoboy pediu então que a mãe se retirasse para falar a sós com o pai.
“Aí, cara, foi foda, levantei a coberta, baixei a calça e disse olha aí o que aconteceu comigo, meu pai estupefato me lascou um puta tapão na cabeça e saiu falando alto, chamou a mãe, contou pra ela, voltaram depois dizendo ‘“levanta que você vai pra Santa Casa”’, meu Deus, depois daquele tapa eu só chorava, tudo bem, não tinha mais jeito, Santa Casa, chamamos o táxi e de repente eu estava lá numa maca e o médico sem saber o que era, que meu pai não abria a boca nem eu, então eu tirei o lençol e o doutor, sem a menor compostura, não se conteve e caiu numa gargalhada, tentava parar mas não conseguia até que se recompôs, diante do estado lamentável do meu pai. Então olhou, olhou e diagnosticou: ‘“precisa ir pra Sorocaba”’, ele ali não podia fazer nada, e a gente partiu numa ambulância. Mas, é claro, tão logo saímos o puto do doutor espalhou o caso na Santa Casa, como depois eu deduzi, é óbvio, pois dois dias depois saiu na Gazeta... – mas antes nós chegamos ao hospital de Sorocaba e lá, mesma coisa, eu morrendo de dor e uma junta em torno, aquelas risadinhas, ironias, e a cada gracinha meu pai me olhava nos olhos com cara de quem só se armava pra desforra quando tudo terminasse, mas o caso não acabava porque também eles não sabiam que fazer, além da morfina que me aliviou, porra, foi um alívio. No dia seguinte, resolveram me mandar sem mais nem menos pra uma retífica – uma retífica! – onde os caras, imagine a cena, primeiro dizendo que não pegavam em pau etc., depois, por respeito a meu pai, com uma microsserra, retiraram a coisa. Olha, nem vou ficar contando o que me queimou o procedimento, a merda foi tanta que não quero enumerar, porque desgraça maior ainda estava por vir. Bem, dali voltei ao hospital, de onde sai enfaixado e medicado.
“Porque saiu no jornal sem dar meu nome, só as iniciais, como se fosse possível, em Itapê, ninguém saber, como também saiu em Sorocaba, e até uma notinha de pé de página no Estado de São Paulo. E no facebook, orkut e o escambau, é claro. Acabaram comigo, cara, destruíam um cara alegre como eu. Não posso mais sair de casa, meu pai nem me deu porrada, não, pior, não fala comigo, minha mãe deprimiu, meus irmãos estão putos pelo que são avacalhados na escola, na rua. Sem contar que perdi minha Carol, mas tudo bem. Tenho de fugir prum novo mundo, é só isso o que eu penso, mas aí também mora o pior de tudo tudo: meu pau não sobe, completa agora um ano, não dói mais mas não sobe, pelo menos até hoje ele nunca mais subiu, fodeu, meter num cano fodeu uma vida. E por isso ainda ando cada vez mais encanado: será que virei veado?
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