Cirandinha



                       Quem conta um ponto aumenta um conto, e foi assim que essa história percorreu um bom caminho até chegar a mim, através da minha querida empregada W. De sua parte, jurou por sua veracidade, sob o argumento de que lhe fora contada pela própria mãe, prima de um dos envolvidos; da parte minha, juro absoluta fidelidade ao que me foi relatado.
Havia uma dona de secos e molhados de descendência alemã que costumava tomar banho pouco antes da aurora, numa prainha do riacho cercada por um matagal devoluto, nos arredores do lugarejo. Um rapaz, apaixonado pela exuberância carnal da quarentona (não passava quatro horas sem comprar chicletes da mão da mulher), tanto a observava, media e analisava que um dia, seguindo-a sorrateiramente, descobriu o seu segredo. E assim foi que conheceu e se deslumbrou com aqueles quadris, seios e pernas bastante generosos, além de uma cabeleira dourada que tangia a cinturanão perdeu mais banho algum. Sua mãe não engoliu de todo a história do filho que afirmava ser atleta e por isso madrugava para treinar. Seu exercício tinha rumo certo: uma moita cerrada de onde, distante uns quinze metros, assistia àquele cinema ao vivo, masturbando-se a valer. Acontece que também ele era o objeto de paixão de uma mocinha vizinha de muro que, espertinha, tendo ouvido comentários despretensiosos de ambas as mães, desconfiou daquela rotina castiça do amado, e resolveu segui-lo na manhã seguinte. Conforme acompanhava de longe o rapaz saindo do povoado, sua bisbilhotice ganhava contornos de aventura, e tanto mais quando se viu obrigada a entrar no terreiro. Decidiu arriscar. Valeu a pena; agachada atrás de uma pedra, presenciou espantada sua paixão platônica recostado numa moita, com o calção entre as pernas e o bundão branco de fora, entretido com alguma coisa adiante que não podia ver. E nem lhe interessava, pois a cena em si era o bastante: o rapaz remexendo em seu belo membro, deliciando-se consigo mesmo no meio da natureza. Foi demais para a moça que baixou a calcinha e se esfregou como nunca. Não deu outra: de manhãzinha, ia a menina esgueirando-se pelas ruas atrás do seu rapaz até aquele terreno baldio. Ocorre que ela tinha um padrasto safado que sacou um quê lascivo na enteada pela qual morria de tesão, e logo viu que isso tinha a ver com suas misteriosas caminhadas matinais; sem nada dizer à mulher, achou por bem conferir o caso. Quando a mocinha adentrou por uma trilha no mato, pressentiu que sua desconfiança não fora em vãomas não esperava tanto: um corpinho doce e inocente batendo uma siririca lascada, apoiada numa pedra! Putz, o impulso era partir pra cima, porém conteve-se, não podia, menos por consciência e sim porque o musculoso irmão mais velho da garota esperava uma oportunidade de lhe quebrar a cara! O jeito era ficar ali mesmo, por trás de um toco seco tombado, saboreando aquele chuchu de saia arregaçada, com a perninha arriada para melhor fazer o serviçoseu pau naturalmente respondendo ao ato. não entendia o que tanto ela espiava para talvez conferisse a possível chegada de alguém. Nessa noite, avisou sua mulher que doravante haveria de madrugar, que o trabalho estava puxado. E assim foi. Pois então chegou a vez da mãe do rapaz, solteirona mas não acabada, que continuava encasquetando com as ginásticas do filho. Pra ela era rolo, evidente, e, antes do sol nascer, pulou da cama para ir a seu encalço. Deixou que ele se afastasse numa medida calculada, porém, no exato instante de sair, recuou temerosa; era a filha da vizinha saindo de casa. Àquela hora! Como não queria ser vista, esperou a menina dobrar a esquina. Pois então, qual não foi a surpresa, agora quem partia era o vizinho gostosão, coincidentemente tomando o mesmo rumo. Quando sentiu que poderia partir, apressou-se a fim de tentar alcançar o destino do filho. Contudo, uma nova cisma tomou lugar da anterior: para onde iria aquele homem apressado, tão cedo, ele que nunca foi dado a trabalhos, inda mais os matinais? E era um macho e tanto, sua vizinha lhe dissera... Estava possuída. Não imaginava ir tão longe, todavia, quanto mais ele se distanciava do lugarejo, mais a curiosidade ocupava seu juízo; queria voltar, mas uma comichão se espalhava pelo corpo. Hesitou um tanto diante da trilha, mas ainda assim continuou, um pouquinho mais, o suficiente para se deparar com o dito cujo de botas e camisa, apoiado num tronco seco, com a piroca apontada para o céu. Aquilo lhe ferveu a vulva que imediatamente foi levada a trato, resguardada detrás de uma enorme seringueira. As escapadas do filho perderam qualquer relevância, desejava apenas que o vizinho voltasse ali um outro dia. Não voltou, como o passeio era rotineiro. Aliás, para a felicidade de todos, a turma se caracterizava pela constância e pontualidade, o que se deve creditar à influência germânica. Poucos dias depois, a culpa por trair sua velha amiga de muro incomodava tanto a mãe solteira que esta necessitou confessar-se com o bom padre. Bom, o padre, antes de disfarçar um mal-estar com o assunto, insistia para que ela pormenorizasse o caso, apontando o lugar da libertinagem e o que exatamente fazia. Sentindo de imediato a malícia no ar, a fiel discretamente minimizou o pecado, dizendo que fazia aquelas coisas sozinha, ao frescor da natureza (achou por bem não citar homem nenhum). Mas o padre não se deu por rogado e foi, ao raiar do outro dia, espionar de perto a casa da confidente. Sua primeira observação o deixou impressionado por quantos naquele canto da cidade pegavam cedo no batente. Por fim, então, era a sua saborosa presa quem saia dissimulada pelas ruas; não sabia que levava às costas o sacristão para o nicho do prazer, que ia meneando-se pelas beiradas, furtivo, com o terço na mão, caso houvesse algum contratempo. Valeu o risco, a descoberta não podia ser mais auspiciosa: aquela fruta madura do seu rebanho, nuinha em pelo, expondo a deusdará toda a arte oculta da intimidade feminina. Reparou que sua graça olhava fixa para frente, como se temesse a aparição de alguém, mas abria-se inteira pelo flanco de , oferecendo-lhe uma plena visão. Ocultado por um rochedo, deu ali vazão a seu pobre instinto humano.
Esse jogo de espia virou uma excitante rotina para o grupo. Conviviam no pacato lugarejo sob a peculiar condição de um conhecer tão intimamente o outro, sem qualquer reciprocidade. Um dia tinha de acontecer alguma coisa, não seria possível a vida continuar nesse rumo indefinidamente, e o fator desencadeante foi de somenos. Antes, porém, preciso descrever, para o bom entendimento, a configuração geográfica de nossas personagens naquele descampado; a uma distância média de vinte metros entre cada um, a disposição do sexteto formava, por acaso, uma circunferência, de tal maneira que o padre, sem o saber, estava razoavelmente próximo da banhista, ambos separados pelo rochedo. Pois bem; o caso em si adveio de um descuido do rapaz, um gemido incontrolável de gozo, que chegou aos ouvidos da inocente mulher. Esta, desconfiada, olhou para os lados e resolveu conferir a moita de onde alguém poderia, em tese, estar urubuzando. Coitado do primeiro punheteiro; quando se apercebeu do perigo iminente, suspendeu como pôde o calção e correu em direção a uma pedra próxima, justo naquela em que a mocinha se escondia. Com ela não foi diferente; com o rapaz avançando feito louco em sua direção, disparou com a calcinha ainda na mão para trás de um pau seco, sem notar o brutamonte de pinto duro que fugia pelado para a toca da mãe, que se ajeitava como podia a meio caminho do rochedo, onde o padre, com o coração e a Virgem Maria na boca, escalava o topo feito um alpinista e, do alto, pulava como um macaco para alcançar a beira do rio – e ali permaneceu sorrelfo, como quem contemplasse a exuberância da natureza. Enquanto isso, a encafifada mulher, alemã por apelido, tendo se certificado aqui, acolá que ninguém a espiava, fazia menção de retornar quando avistou, pasma, o sacerdote de sua cidade rezando em seu local de banho. Isso no exato momento em que ele notara mudas de roupas femininas penduradas num galho – incluindo, sobre o vestido, uma calcinha e um sutiã. E na prainha, o padre concluía: havia outra mulher na parada, talvez a sua espreita, e por isso reiniciou destrambelhado a sua oração a passos largos, com o objetivo de encafurnar-se detrás de uma moita. A infeliz que ali se protegia, prestes a ser flagrada em condições sumárias, partiu para a pedra, pelo que obrigou o rapaz a voar para o tronco caído, a mocinha para a seringueira, o padrasto para o rochedo e a mãe, escalando desesperada a rocha, ao rioonde fingiu beber água. Mas logo notou também a roupa no galho, o que a fez temer que seu vizinho pensasse ser dela, e procurou refúgio na moita, donde o padre sobressaltado escapuliu para a pedra e os demais para o refúgio seguinte. Pois agora era a vez do padrasto deparar-se com aquelas peças íntimas, recear pela presença de alguém e reiniciar a mesma ciranda que, passando pela mocinha, girou até o rapaz chegar ao riacho. O moleque sabia que não teria outra chance; surrupiou a calcinha da amada, e correu para a moita. Pois então, a mulher estava de volta ao rio e aproveitou para catar num átimo suas vestes, cuja calcinha deu pela falta quando se encolhia atrás da moita. Depois de vestida, o que viu entre os ramos? um padre ladrão de roupas íntimas fingindo orar na beira do rio! O que faria? Como pediria que a devolvesse? “Por favor, padre, devolva minha calcinha...!” “Safado” – ela pensava – “pedirá algo em troca.” Sentia ódio, estava certa de que era dele o grunhido antes ouvido. O melhor era fugir imediatamente – e assim o fez, escolhendo para isso uma outra trilha que partia da moita, cercada por um alto capim-gordura que a encobriria de seu fetichista, além de evitar o risco de topar com ele. Também o religioso teve a mesma ideia de escapar pela tangente daquela mixórdia e voltar o mais breve pra a sua serena paróquia, caso contrário ficaria ali eternamente desvairando num círculo vicioso. Por acaso, tomou o mesmo atalho discreto, no que foi seguido, nem precisaria dizer, pela mãe, padrasto, mocinha e rapaz, que tiveram o cuidado de não girar a ciranda ao contrário e dar de cara com quem não queriam.
Já adiante, na estrada, a apressada alemã sentiu um calafrio ao se ver acossada pelo padre. “Deus misericordioso!” – foi o que espontaneamente saiu de sua boca. Estugou ainda mais ligeiro, porém, toda vez que conferia a situação, lá estava o dissimulado pároco olhando igualmente para trás. Atarantada, abrigou-se numa padaria suburbana que um senhor acabara de abrir suas duas portas de esquina – e pediu uma bengala. Esperaria ali até que o cônego passasse. Não passou. Também ele vinha sendo seguido pela mãe e, sem mais pernas pra se locomover, penetrou como um raio naquele mesmo comércio. A mulher soltou um ai e escapuliu como um trovão pela porta contígua, deixando o padeiro de pão na mão e o padre atônito – este que, malparado, desabou-se numa cadeira, branco, vermelho, suplicando ao outro por água e sal. Contudo, ainda antes de ser servido, agora era a mãe que ali irrompia como estivesse drogada, dando de cara com o sacristão, mas afônica demais para cumprimentá-lo. O prostrado sentiu a morte chegar, fez o sinal da cruz, balbuciou alguma frase desconexa e partiu como um condenado, deixando espantado o responsável pelo estabelecimento, com o copo d’água suspenso. A cambaleante senhora, querendo passar naturalidade, pediu uma carteira de cigarros e dirigia-se para sentar na cadeira do fugitivo quando o lunático padrasto, julgando-se encalçado pela enteada, prorrompeu naquele lugar como um pé de vento, com seu velho e nojento tique de coçar o saco, clamando por uma dose – mas teve sua atenção desviada pelo estrondo da mesa metálica caindo no chão, enquanto uma mulher que lhe pareceu familiar dali se lançava feito um foguete. O perplexo dono daquela padaria há trinta anos, recolocando o cigarro em seu lugar, encarou firme os olhos do novíssimo freguês, como se perguntasse se quereria realmente a pinga. Mas o homem não notava nada, aflito demais, caminhava até a porta, examinava a rua, voltava, saía de novo. Pois foi só o tempo do comerciante servir a dose para o cabra disparar pela porta contrária àquela pela qual invadia esfuziante uma moça, com um botão do vestido aberto na altura da barriga. Louca de hospício, vendo aquela dose de cachaça sobre o balcão, virou de um gole. Nem olhou a cara do velho que, nessa altura, preparava-se internamente para perder a paciência – não houve tempo; chegava um rapaz com um jeito traquina que, surpreso por encontrar a vizinha, caminhou sorridente em sua direção para cumprimentá-la. A mocinha fingiu sem disfarçar que não o vira e deu o fora, vexadíssima, como se estivesse fugindo de um banheiro masculino. O último da fila, o mais desanuviado dentre todos, pediu um chiclete. Mas a tal paciência havia se esgotado justamente naquele instante, e o senhor deu a volta no balcão, agarrou o jovem pelos colarinhos e falou assim: “além do seu chiclete, você não quer também uma bengala, um copo de água e sal, um maço de cigarros, uma dose de pinga – e me explicar o que está acontecendo aqui nessa manhã em que o sol parecia nascer igual a todos os dias?”. O menino não entendia exatamente a razão daquele discurso, ainda que sentisse uma pulguinha atrás da sua orelha. Mas como ele descobrira? “Não sei não o que o senhor está confabulando...” “Pois suma daqui e avise os outros que minha casa não é ponto de gincana” Dizendo isso, expulsou aos trancos o rapaz, arriou as portas e saiu para vigiar o movimento das ruas. Mas ninguém mais apareceu.
Desde então acabaram as sacanagens em torno do rio; a mulher não mais voltou e se tornou evangélica; o padre pediu aposentadoria por problemas de saúde, e jamais triscou o pé naquela estrada; os dois jovens ainda fizeram algumas incursões ao local para averiguar, e desistiram – a mocinha viria a se casar com outro, para desgosto do rapaz, que por ela ironicamente se apaixonaria; o padrasto, logo após o imbróglio, separou-se da mulher, com medo de apanhar do feroz enteado; e a mãe mudou-se assim que pôde, desconfiada de que o caso chegasse aos ouvidos da vizinha e, portanto, da comunidade.

Li para a minha W. o resultado da sua história. Ela achou bem descrita, mas observou um pormenor quanto à disposição da ciranda, que para ela torna a confusão um tanto sem sentido. Segundo sua correção, cada qual demorou a fugir por receio de ser visto, pois que a trilha por onde eles saíram, não ficava, como eu escrevi, perto da tal moita, mas de viéis, e que nesse ponto o mato se abria, permitindo que aquele que estivesse atrás, no papel de perseguidor, avistasse sua presa. Assim, enquanto a alemã não parasse de girar, ninguém escaparia da roda. Confesso que não entendi esse tal de viéis. No mais, não viu exagero algum.

Um comentário:

bia reinach disse...

Zé, isso tá ficando viciante, pior que novela boa. Entro em casa e já corro prá ler a nova história,ôps, estória.
Que delícias! E rio, rio, rio e lavo a alma.
bia