Exame de Próstata


Esse tal exame de próstata é assunto delicado. Não sei se o que aconteceu comigo é comum. Relutava em fazê-lo, porém, diante da pressão dos meus paresque, por submeterem-se, quase exigem de todos o mesmo –, marquei hora com um médico de plano de saúde. Figura opaca, longilínea, passou-me confiança pela discrição. Após as formalidades de praxe, pediu-me para me pôr de quatro. O dedo entrou sem maiores problemas, e concluí comigo que fazia tempestade em copo d’água. Mexeu, mexeu – apenas demorava mais do que eu esperava. Haveria algum problema? Não ousei perguntar. Aconteceu que subitamente enfiou um segundo dedo, o que por pouco não me fez perder o equilíbrio. Que raios! É verdade que era um toque de quem examinava, mas por que dois dedos? Foi somente o tempo de me acostumar com a ideia, e o doutor meteu um terceiro e calcou fundo. Soltei um ai bem alto, pulei pra frente e ele me disse:
Calma.
– Tá tudo bem? perguntei.
Rotina.
Estava aturdido; ninguém nunca me dissera que se enfiava a mão inteira. O exagero do meu pensamento durou apenas um instante antes do fato se consumar: ele enfiou sua mão inteira. Não suportei, não propriamente a dor, mas a sensação humilhante de estar sendo enganado. Debati-me para sair e ele, agarrando-me pela cintura com o outro braço, bronqueou feio:
Assim o senhor está atrapalhando o exame!
– O que está acontecendo? interroguei determinado.
Nada, pare quieto senão não alcanço.
Porra! estava certo? Era assim mesmo? Olhava pra trás, para a cara do médico, e ele me parecia bastante compenetrado no serviço; não estava de sacanagem, com aquela cara não! Sentia sua mão revirando algum órgão, como se abrisse caminho. Tentei relaxar. O curioso é que a dor surpreendentemente não incomodava. Nova sensação. Voltei-me, para perceber então que deslizava para dentro meio braço.
Quieto, estou chegando.
E na sequência, o braço inteiro. Ali ele ficou, penso, imóvel, com o rosto apoiado na minha bunda. Sentia que beliscava vários órgãos, como se procurasse algum nódulo. Sua feição continuava séria. O incômodo em si voltou a dar lugar à preocupação:
Doutor, encontrou alguma coisa?
Ainda não acabei. Agora preciso que você relaxe pois vou entrar. Respire fundo e continuamente, lembre-se que estará respirando por dois.
Antes que eu pudesse entender a que se referia, enfiou de um golpe sua cabeça. Soltei um berro de pavor. Isso não podia estar acontecendo comigo. Gritava desesperado para que saísse, que não queria mais, que ele havia passado do limite, mas como ele poderia me ouvir, encerrado dentro do meu próprio corpo? Eu fazia uma força instintiva para o expelir, o que o ajudava ainda mais a penetrar-me. Foi que iniciou um movimento pendular, forçando aos poucos a entrada dos ombros, o que me parecia impossível. Mas meu ânus se comportava como a boca de uma cobra que aos goles engole uma presa gigante. Pois entraram os ombros e tudo o mais, e agora dele restava fora a metade abaixo dos quadris. E não apenas meu ânus, minha barriga era como a de uma jiboia, deformada ao extremo pelo invasor. Eu não parava de gritar, de chorar, de falar sozinho, alternando meus urros com murmúrios: por favor saia, saia... Foi quando, de minha boca aberta, emitiu-se uma voz que não era minha:
Estúpido, respire fundo, você quase me mata! Pensa que tem ar aqui dentro? Preciso de seus pulmões cheios. Respire, isso, isso. Agora, pare de tagarelar que você tensiona as traqueias, além do que eu não escuto. respire, que estou terminando. Olhe, o coração está ótimo!
De fato, daí não tardou para que ele se expelisse de mim num jacto, estatelando-se no chão do consultório ao mesmo tempo em que eu despencava da maca. Quando me ergui, ele ainda estava ofegante, nojento, melado de gosmas e sangue da cintura para cima, parecendo um enorme feto de sapatos e calça de linho branco. Eu também estava abatido, mas aliviado. Pus ligeiro minha roupa, pensava em fugir imediatamente dali e me dirigia à porta, quando ele me inquiriu:
– Sente .
Ele levantou-se e sentou à mesa, limpando com uma toalha o que era possível. Apertou um interfone e chamou a enfermeira. Em instantes, entrou de supetão uma senhora fogosa de meia-idade trazendo novas toalhas e dizendo assim:
Como foi, meu peixinho...?
E ele, com voz regredida:
Muito, muito difícil!
E murmurando coisas como coitadinho... mamãe te limpa... esses pacientes não sabem a dificuldade... enxugava com esmero o doutor enquanto este descansava repousando a cabeça em seus seios. Eu estava farto daquilo, interrompi e o interpelei de forma severa:
Doutor, eu tenho alguma coisa?
Ele depressa se recompôs e dispensou a enfermeira:
Obrigado, pode sair. – Agora voltou sua voz de médico.
Pegou suas fichas, fez algumas anotações e concluiu sumariamente:
Aparentemente está tudo bem. Oitenta por cento de chance de não haver nada, mas vamos precisar fazer uns exames, um ultrassom do abdome...

6 comentários:

bia reinach disse...

Ai ZÈ, ri muito, muito...ótimo!

il disse...

Bárbaro, precisamos de um ator pra fazer essa esquete

anatatit disse...

Com penetrado! está no texto! muito divertido! bjs anatatit

Edith Pittier disse...

a muito tempo que não rio tanto! Obrigada

Diana disse...

Ai, credo!
Muito aflitivo...

Tati disse...

Nossa ze, que mistura boa de absurdo com realidade!