– Calma .
– Tá tudo bem ? perguntei.
– Rotina .
Estava aturdido ; ninguém nunca me dissera que se enfiava a mão inteira . O exagero do meu pensamento durou apenas um instante antes do fato se consumar : ele enfiou sua mão inteira . Não suportei, não propriamente a dor , mas a sensação humilhante de estar sendo enganado. Debati-me para sair e ele , agarrando-me pela cintura com o outro braço , bronqueou feio :
– Assim o senhor está atrapalhando o exame !
– O que está acontecendo? interroguei determinado .
– Nada , só pare quieto senão não alcanço.
– Quieto , estou chegando.
E na sequência, o braço inteiro . Ali ele ficou, penso , imóvel , com o rosto apoiado na minha bunda . Sentia que beliscava vários órgãos , como se procurasse algum nódulo . Sua feição continuava séria . O incômodo em si voltou a dar lugar à preocupação :
– Doutor , encontrou alguma coisa ?
– Ainda não acabei. Agora preciso que você relaxe pois vou entrar . Respire fundo e continuamente, lembre-se que estará respirando por dois .
– Estúpido , respire fundo , você quase me mata ! Pensa que tem ar aqui dentro ? Preciso de seus pulmões cheios . Respire, isso , isso . Agora , pare de tagarelar que você tensiona as traqueias, além do que eu não escuto. Só respire, que estou terminando. Olhe, o coração está ótimo !
De fato , daí não tardou para que ele se expelisse de mim num jacto, estatelando-se no chão do consultório ao mesmo tempo em que eu despencava da maca . Quando me ergui, ele ainda estava ofegante , nojento, melado de gosmas e sangue da cintura para cima , parecendo um enorme feto de sapatos e calça de linho branco . Eu também estava abatido , mas aliviado. Pus ligeiro minha roupa , pensava em fugir imediatamente dali e já me dirigia à porta , quando ele me inquiriu:
– Sente aí .
– Como foi, meu peixinho...?
E ele , com voz regredida:
– Muito , muito difícil !
E murmurando coisas como coitadinho... mamãe te limpa ... esses pacientes não sabem a dificuldade ... enxugava com esmero o doutor enquanto este descansava repousando a cabeça em seus seios . Eu estava farto daquilo, interrompi e o interpelei de forma severa :
– Doutor , eu tenho alguma coisa ?
– Obrigado , pode sair . – Agora voltou sua voz de médico .
Pegou suas fichas , fez algumas anotações e concluiu sumariamente:
– Aparentemente está tudo bem . Oitenta por cento de chance de não haver nada , mas vamos precisar fazer uns exames , um ultrassom do abdome ...
6 comentários:
Ai ZÈ, ri muito, muito...ótimo!
Bárbaro, precisamos de um ator pra fazer essa esquete
Com penetrado! está no texto! muito divertido! bjs anatatit
a muito tempo que não rio tanto! Obrigada
Ai, credo!
Muito aflitivo...
Nossa ze, que mistura boa de absurdo com realidade!
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