O Bunda
O Bunda era sereno , sabia esperar . Alguns achavam que tinha formação , que um trauma deixara-o assim , talvez a perda de um ente amado . De fato havia nele uma aura nobre . Muitas vezes quiseram presenteá-lo com uma prostituta , mas ele balançava a cabeça negativamente . Chegaram a lhe apresentar uma tal que aceitou a incumbência por um bom cachê ; ele franziu a testa , meneou a cabeça firmemente e no ato recolheu o acampamento e foi embora . Como se vê , o mendigo era digno . Um psicólogo , frequentador da padaria , dizia que ele vivia sob hipnose que poderia ser desfeita caso uma mulher de fato lhe desse a bunda . Quem ouviu, não o levou a sério .
Uma cabeleireira japonesa, cujo salão ficava quase ao lado do ponto do Bunda e que , portanto , conhecia-o muito bem , não fazia deboche como as outras mulheres àquele pedido ininterrupto . Talvez porque fosse solitária , com a idade na qual as esperanças vão sendo corroídas pela rotina , sentia certa perturbação cada vez que passava por ele e recebia o chamado. Ao menos o olhar era respondido com outro olhar . É evidente que nunca se abriu com ninguém , mas internamente considerava aquele homem um homem . Não se tratava de atração , nem compaixão , era uma cisma , uma curiosidade ou talvez o insondável de uma outra obsessão oculta: a sua . Para a japonesa, aquele homem tinha um valor , ao menos obtivera a atenção de todos através de seu sonho , e ela não , ninguém a via , era transparente e não sonhava nada .
Vinte e três horas , o comércio fechado, pouco movimento na rua ; aproximou-se do Bunda e, antes de ouvir seu pedido , falou baixinho, de forma afetiva :
– O senhor quer uma bunda ? Me acompanhe.
O homem levantou-se e seguiu a mulher . Entraram pelo corredor externo do salão , escuro e ladeado por altas paredes . Ao fim , abria-se um pequenino quintal , ocupado quase exclusivamente por um velho banco de madeira . Sem qualquer inibição , deu as costas , baixou a saia e a meiacalça até os joelhos , deixando saltar um largo quadril rosado , bem feito , iluminado por uma lâmpada de poucos watts . E assim ficou, ali , apoiada no banco , disposta a tudo , inclusive ao sexo , caso fosse possível . Mas o homem nem a tocou, caiu de joelhos com às palmas das mãos coladas, pendeu um tanto a cabeça , parecia rezar para a bunda como a uma santa , fechando e abrindo os olhos com fervor . A japonesa sorriu daquele cerimonial que considerou uma estranha preliminar ; sentia frio no lombo e na alma , mas não tinha pressa . Contudo , de repente , sua paciência terminou e vestiu-se de pronto :
– Agora chega , vamos.
O homem ergueu-se em lágrimas . Fez à dona de sua bunda uma respeitosa reverência e saiu. No dia seguinte , havia desaparecido.
Passaram-se cinco anos , tempo suficiente para o Bunda ser esquecido e a mulher assumir-se como uma idosa . O aluguel aumentou, o salão faliu, preparava-se naqueles dias para partir . O homem que bateu em sua porta trazia um buquê de flores . Vestia um terno pobre mas ajeitado e sapatos novos . Tinha raspado a barba e cortado os cabelos , engordara um pouco e sorriu com dentes novos . O olhar era o mesmo , através dele a japonesa o reconheceu e caiu na gargalhada :
– E não é o meu caro Bunda ! Entre ...
– Por obséquio , madame , não gosto de ouvir a senhora falando esse nome .
– Vamos, entre , sente, então ... está vivo !
– Senhora , vim pedir sua mão em casamento .
– Quase não me pega mais ...
A japonesa não precisava se preocupar mais . Ele a levou para uma casinha simples , mas muito arrumadinha.
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