O Bunda


Era conhecido como Bunda, pelo seu peculiar jeito de suplicar a todas as mulheres que passavam: “uma bunda, pelo amor de Deus!” Apanhou diversas vezes, até que o povo se acostumou e achou graça. Certamente foi sua perseverança que despertou a compaixão de todos. Nos últimos anos virou o bibelô do bairro, instalado ao lado da padaria, protegido pelas senhoras da vizinhança, que lhe garantiam o alimento, e pelos habitués do comércio local, quando desavisados machistas revoltavam-se com aquele inocente molambento que deitado na calçada olhava fixo para qualquer passante feminina e impetrava-a com voz de barítono: “uma bunda, pelo amor de Deus!” Na verdade, os homens ali até esperavam com sua cerveja na mão os transeuntes de fora, principalmente casais, que se aproximassem distraídos. A treta era certa, a diversão garantida. Se o estranho partia para a ignorância, sempre havia quem interviesse a tempo, evitando o pior.
Ele nunca disse outra frase. Mesmo quando a polícia o levava, ou uma surra o pusesse num hospital, voltava a seu ponto assim que podia, esticava os trapos, esperava a primeira fêmea e soltava com vigor o seu “uma bunda, pelo amor de Deus”. Nunca agradeceu as moedas, roupas ou comidas que a turma lhe oferecia com prodigalidade. Aos homens sequer levantava a cabeça, observava-se inclusive que ele cerrava um pouco os olhos, todavia, quanto às mulheres, lançava seu mote junto a um olhar profundo. Sorria discretamente apenas quando crianças o encaravam curiosas – para estas demonstrava respeito.
O Bunda era sereno, sabia esperar. Alguns achavam que tinha formação, que um trauma deixara-o assim, talvez a perda de um ente amado. De fato havia nele uma aura nobre. Muitas vezes quiseram presenteá-lo com uma prostituta, mas ele balançava a cabeça negativamente. Chegaram a lhe apresentar uma tal que aceitou a incumbência por um bom cachê; ele franziu a testa, meneou a cabeça firmemente e no ato recolheu o acampamento e foi embora. Como se , o mendigo era digno. Um psicólogo, frequentador da padaria, dizia que ele vivia sob hipnose que poderia ser desfeita caso uma mulher de fato lhe desse a bunda. Quem ouviu, não o levou a sério.
Uma cabeleireira japonesa, cujo salão ficava quase ao lado do ponto do Bunda e que, portanto, conhecia-o muito bem, não fazia deboche como as outras mulheres àquele pedido ininterrupto. Talvez porque fosse solitária, com a idade na qual as esperanças vão sendo corroídas pela rotina, sentia certa perturbação cada vez que passava por ele e recebia o chamado. Ao menos o olhar era respondido com outro olhar. É evidente que nunca se abriu com ninguém, mas internamente considerava aquele homem um homem. Não se tratava de atração, nem compaixão, era uma cisma, uma curiosidade ou talvez o insondável de uma outra obsessão oculta: a sua. Para a japonesa, aquele homem tinha um valor, ao menos obtivera a atenção de todos através de seu sonho, e ela não, ninguém a via, era transparente e não sonhava nada.

Vinte e três horas, o comércio fechado, pouco movimento na rua; aproximou-se do Bunda e, antes de ouvir seu pedido, falou baixinho, de forma afetiva:
– O senhor quer uma bunda? Me acompanhe.
O homem levantou-se e seguiu a mulher. Entraram pelo corredor externo do salão, escuro e ladeado por altas paredes. Ao fim, abria-se um pequenino quintal, ocupado quase exclusivamente por um velho banco de madeira. Sem qualquer inibição, deu as costas, baixou a saia e a meiacalça até os joelhos, deixando saltar um largo quadril rosado, bem feito, iluminado por uma lâmpada de poucos watts. E assim ficou, ali, apoiada no banco, disposta a tudo, inclusive ao sexo, caso fosse possível. Mas o homem nem a tocou, caiu de joelhos com às palmas das mãos coladas, pendeu um tanto a cabeça, parecia rezar para a bunda como a uma santa, fechando e abrindo os olhos com fervor. A japonesa sorriu daquele cerimonial que considerou uma estranha preliminar; sentia frio no lombo e na alma, mas não tinha pressa. Contudo, de repente, sua paciência terminou e vestiu-se de pronto:
Agora chega, vamos.
O homem ergueu-se em lágrimas. Fez à dona de sua bunda uma respeitosa reverência e saiu. No dia seguinte, havia desaparecido.

Passaram-se cinco anos, tempo suficiente para o Bunda ser esquecido e a mulher assumir-se como uma idosa. O aluguel aumentou, o salão faliu, preparava-se naqueles dias para partir. O homem que bateu em sua porta trazia um buquê de flores. Vestia um terno pobre mas ajeitado e sapatos novos. Tinha raspado a barba e cortado os cabelos, engordara um pouco e sorriu com dentes novos. O olhar era o mesmo, através dele a japonesa o reconheceu e caiu na gargalhada:
– E não é o meu caro Bunda! Entre...
Por obséquio, madame, não gosto de ouvir a senhora falando esse nome.
– Vamos, entre, sente, então... está vivo!
Senhora, vim pedir sua mão em casamento.
Bunda apresentou-se como João Ederaldo de Moreira Teles. De alguma forma, havia refeito sua vida e contou com emoção o quanto esperara por esse dia.
Quase não me pega mais...
A japonesa não precisava se preocupar mais. Ele a levou para uma casinha simples, mas muito arrumadinha.

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