Dois Pêssegos
Dois pêssegos se amavam desde que nasceram quase grudados num ramo setentrional noroeste de um pessegueiro do vigésimo oitavo corredor esquina B do pessegal da fazenda Dois Irmãos, no subúrbio de Santo Antonio do Pinhal. Nascer grudado a outro não garante o amor de nenhum pêssego, mas no caso dos dois aconteceu.
- Breve seremos colhidos...
- Prefiro isso a vê-lo sugado por morcegos ou consumido por larvas...- Eu não. Iria com você até a podridão, assim nossas sementes jazeriam próximas na terra...
- Deus me livre, assistir à maciez de sua pele enrugando-se lentamente...A separação se deu, como esperado, no dia da colheita; um pêssego rolou para a lateral do cesto da camponesa, o outro quedou no centro. E tiveram de suportar o peso e o fedor de muitos outros que se lhes sobrepuseram, além do mal-estar gerado pelo insólito movimento. O balanço da cesta acabou por reacomodá-los de tal forma que um ainda podia observar, através de réstias de luz, uma mísera tangente do outro. Contudo, sem melodrama, eram pêssegos maduros e preparados para enfrentar o inevitável fim.
Foram despejados numa esteira barulhenta para a seleção. Doeu a pancada no metal, mas ao menos livraram-se da pressão e brutalidade dos sacolejos. Porém, logo uma mão apressada recolheu um deles, vestiu-o num falso papel de seda e o ajeitou na ponta esquerda do alto de uma caixa de papelão para nove unidades. Em outro seguimento da esteira, o segundo pêssego vivia a mesma experiência, apenas com posição trocada, no meio da base do quadrado.
Desagradável, previsível e tedioso continuar a descrever a via sacra dos dois pêssegos desde a fazenda até o mercado Sacolão, o confinamento no escuro das caixas, aquele sufoco de bodum de pêssegos, o ataque de ruídos inauditos, trancos e quedas vertiginosos, além da angustiosa viagem de caminhão. Vale apontar apenas a primeira dentre as seguidas coincidências: ambos embarcaram no mesmo lote que chegou ao Ceasa, o mesmo adquirido pelo mercado – mas, é claro, não faziam disso a menor ideia.
Quando um funcionário abriu as tampas, estavam expostos numa gôndola comprida e eram sucessivamente apertados por um bando de mulheres grosseiras; diante da aproximação de uma mão gigante, só lhes restava rezar para não serem os escolhidos. Entre um exame e outro, os pêssegos passavam olhando a fria paisagem do enorme pé-direito do imóvel. Uma freguesa então pôs no carrinho a caixa de um dos pêssegos. Já se distanciava quando hesitou um instante, considerando a provável disputa entre os cinco filhos; voltou e catou mais uma, a que estava mais à mão e que continha justamente o outro pêssego. Portanto, sem conhecimento um do outro, foram parar na mesma casa.
A dona da casa nem se deu ao trabalho de tirar os pêssegos das embalagens que simplesmente foram abertas e dispostas na bancada da cozinha. O menino passava, pegava um; a menina, outro, o pai, a empregada, enfim, aleatoriamente os pêssegos iam sendo consumidos. Nessa roleta-russa, sobreviveram os dois pêssegos, dentre mais alguns. À noite, ao arrumar a cozinha do jantar, a mãe colocou os pêssegos que restavam de uma caixa nos espaços vazios da outra, de modo a descartar uma delas. Nesse processo comezinho, dispôs por acaso o pêssego ao lado do outro pêssego, que no ato despertaram de suas letargias para viveram a maior alegria de suas vidas.
- Como você está corado...!
- E você, então? Vermelho! Amadurecemos tanto nesses dias...
- Seu perfume...
- Nunca havia te visto por esse lado... Você tem uma bela covinha...
- E como está? Perdão, eu sei, essa pergunta não cabe...
- Não vamos perder nosso tempo com lamúrias...
Os dois deixaram as palavras de lado e mergulharam numa profunda contemplação mútua. Quando a lâmpada foi apagada, passaram a madrugada emanando ondas de amor e prazer que somente o olfato dos dois podia entender e traduzir. Ao amanhecer, tiveram juntos esta visão: no galho do pessegueiro, embalados ao deus do vento...
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