A Discussão
A discussão chegou ao ponto de um dizer:
– A morte tem hora marcada, aquela na qual termina a missão de um homem.
O outro, já fora de si, puxou a faca, avançou em cima e retorquiu:
– A morte é obra do acaso! Pois eu te mato agora, seu místico de merda, e como poderás terminar tua missão?
– Se me matares agora, a morte usará tua mão para asseverar que minha missão está completa; se falhares, a razão não será outra senão a necessidade ainda de ter de completá-la. De uma forma ou de outra, terás de concordar comigo.
– E como isso me provaria, se não sei, e nem tu sabes, qual a tua missão?
–Tens razão: se morro, jamais saberás o destino da minha missão; se me deixas vivo, terei um tempo indefinido para concluir a tarefa – e tu não estarás a meu lado para conferir.
– Esta hipótese não existe. Eu vou te matar e provar a mim – e é só o que me interessa – que a morte é obra do acaso.
– Isso apenas fará com que concordes imediatamente comigo, pois logo compreenderás que parte crucial da tua própria missão era matar-me e assumir as consequências do ato pelo resto de teus dias.
Diante desse argumento, houve uma pequena pausa, interrompida pelo primeiro:
– Estúpido. De nada importa saber se temos ou não tal missão; deverias me questionar quanto a vantagem de tê-la, caso haja.
– Agora tu tens razão. Pois então te pergunto: o que ganhas com tua ideia que eu perco com a minha?
– Aqueles que têm a capacidade de conhecê-la caminham pela vida sem medo, pois estão acompanhados pelo seu destino.
– Sim, sim, agora entendo tudo muito bem e agradeço por teres me ajudado decidir pelo que deve ser feito.
E alçando a mão para o alto, desferiu-lhe um golpe rasante na altura do pescoço, quase arrancando a cabeça do outro fora.
– Missão ou não, medo pra mim não é a questão.

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