A mosquinha justiceira dará início a sua tarefa: através de seu software de detecção e localização (além de contar, evidentemente, com seus superpoderes), o mal absoluto que reside dentro de alguns homens desse mundo-cão será erradicado. O curioso dessa história – adianto, pois ninguém reparará –é que ela não veja mal em mosca alguma, somente nos homens. Por que ela teria de se intrometer? Pois então, do seu ponto de vista, nossa mosquinha está prestes a nos salvar.
O programa detecta em 0,23” um ser humano mau – mas somente o mal comprovadamente irrecuperável –; 0,76” é o tempo médio de seu voo até seu alvo e 0,01” a fração destinada ao choque que infartará instantaneamente o indivíduo, emitido desde a sua ultravisão. Assim sendo, a cada segundo a mosquinha eliminará um agente do mal. (É claro que nos presídios, por exemplo, dizimará muitas centenas de vez, porém seu cálculo leva em conta viagens longínquas para o outro lado do globo.) Portanto: 60 malignos por minuto, 360 por hora, 8640 por dia. Descontados cinco minutos para se munir de informações, e cinquenta e cinco para descansar e fornicar, o número exato para cada dia será de 8280 extermínios.
Não cabe nenhuma crítica à exatidão moral do seu programa, pois este jamais aponta alguém mais ou menos mau; seu procedimento consiste numa varredura do interior de cada um, contemplando desde sua origem até os inúmeros possíveis futuros, para enfim selecionar apenas seres que de fato não servem pra nada. Aí, zummm e zip – e o cara cairá infartado pelo choque fulminante. Hoje ela está com pressa, já se decidiu por ignorar qualquer tipo de piedade ou prazer sádico na derrocada do mau; tudo isso demandaria tempo, e ela precisa ser objetiva para poder percorrer todo o mundo.
A primeira cidade escolhida foi São Paulo, sem outro motivo aparente senão simplesmente por ali residir como um poderoso rei em meio a um séquito de milhares de moscas comuns, sob a ponte Dona Guilhermina. Bem, aconteceu que São Paulo um dia amanheceu com 8280 cadáveres, fenômeno a princípio de todo misterioso. Profissionais da área de segurança, saúde e comunicação, parentes das vítimas, jornalistas, agentes funerários, dentre outros, zanzando feito moscas (ironia minha) pra lá e pra cá; caos nos necrotérios, cemitérios, nos comércios de flores e caixões. Apesar de toda a perplexidade, ninguém traçou qualquer relação tipológica entre os defuntos; era grande o número de bandidos – isto de fato chamou a atenção –, mas havia gente de toda espécie e profissão, incluindo dezenas de artistas e políticos famosos. Ora, ora, isso foi apenas o primeiro dia; enquanto o mundo preparava as manchetes sobre misteriosas mortes na capital paulista, a meia-noite chegava, o dia seguinte advinha e, com ele, nova exterminação absolutamente idêntica. Não havia lugar para enterrar tantos corpos, todos com a mesma causa mortis: infarto.
Nesse segundo dia, houve já quem escrevesse nos jornais ou comentasse nas TVs sobre a estranha maioria de criminosos dentre os falecidos. Mas a análise não era conclusiva pela inclusão de aparentes inocentes, como a mãe do governador, 27 secretários e subprefeitos, 316 funcionários públicos, 29 vereadores, 3 jogadores do Corinthians, 215 menores de idade (nenhum abaixo de dezesseis anos), 37 padres católicos, 103 pastores evangélicos, 690 empresários e 1390 trabalhadores com carteira assinada. Esses eram números extra-oficiais que compreendiam os dois dias de chacina, dentro daquilo que as autoridades puderam catalogar. No terceiro, esses números tiveram de ser refeitos.
Pânico na cidade, no Brasil, no mundo; se era um vírus – e haveria de ser – estaríamos diante de um destino inexorável para o planeta. Toque de recolher, enterros em vala comum, exército nas ruas, pane na telefonia, internet, caos na rede elétrica, nos veículos de comunicação... Porém, mesmo com a população encerrada em casa, mais 8280 mortes no quarto, quinto, sexto dias... Apesar da absoluta imprecisão no cálculo dos cadáveres, alguns generais desconfiavam do volume semelhante diário, além do enigmático intervalo sem óbitos entre o meio-dia e às treze horas.
– Examinem seus corações... anunciavam religiosos dos mais diversos credos. Místicos, filósofos e artistas engrossaram o coro; parecia de fato haver relação entre a morte súbita e a maldade. Mas era grande o número de antiexemplos, o que municiava os argumentos contrários dos cientistas e ateus em geral. Acontece que, como foi dito, o programa da nossa heroína analisava o interior das pessoas, e socialmente muitos se apresentam como bem-comportados; como o povo poderia desconfiar de uma tal idosa, do afável dono da padaria, daquele calmo professor de ioga, do meu próprio padre... muitos casos a contradizer as ideias corretas e intuitivas dos místicos. Além do que, a morte de centenas de homens e crianças, tanto as naturais como aquelas advindas da cólera e tifo que se espalhavam rapidamente – cadáveres amontoavam-se nas esquinas, sobretudo em bairros pobres –, confundia ainda mais a evidência da razão pura e simples.
Décimo dia, e a versão mística venceu qualquer racionalismo. A percepção de que os ruins estavam pagando por suas maldades tomou conta do povo que voltou às ruas ignorando qualquer ordem oficial. Era voz corrente: alguns inocentes pagavam a conta por estarem próximos do mau no momento da fúria de Deus. Aliás, até o impotente governo passou a nomear em caráter urgentíssimo pessoas de reputação ilibada como substitutos dos corruptos exterminados (nem todos, acrescento; apenas os muito maus corruptos) – este um sintoma de que, mesmo no âmbito oficial, havia a intuição de um advento apocalíptico. No exterior não era diferente: por via das dúvidas, os corajosos analistas internacionais que aqui aterrissaram (dois faleceram) eram recrutados dentre os reconhecidamente serenos e bondosos (havia também uma corrente de opinião que defendia que o vírus atacava os bravos ou raivosos). O Brasil só aceitava uma única ajuda humanitária: caixões. Sacos plásticos, caminhões e escavadeiras tínhamos o suficiente – fizeram das margens do Rodoanel o maior cemitério do mundo.
Completado o mês, a culpa tomou conta da população: ricos doavam tudo para igrejas as quais enviavam o farto donativo imediatamente para asilos, creches ou instituições de caridade, cujos diretores, por sua vez, destinavam-no para os pobres com a maior brevidade – numa cadeia de boas ações e reações jamais imaginada. Professores não faltavam às escolas, estudantes passaram a estudar, técnicos de geladeira e máquina de lavar, por exemplo, a trabalharem honestamente; os valores de remédios ou mercadorias em geral, aluguéis, consultas médicas, táxis, restaurantes etc. despencaram; policiais fizeram-se gentis, ladrões deixaram de roubar e vários bancos foram apedrejados como símbolo da exploração capitalista. Romarias de fanáticos em trajes franciscanos, reunindo poderosos e miseráveis, vagavam pelas avenidas sem rumo definido; algumas desembocavam em centros religiosos, outras enchiam qualquer praça ampla – Paulista, Anhangabaú, Campo de Marte – a fim de se solidarizarem num conforto mútuo. Contudo, é bom ressaltar, havia uma grande parcela da população que fazia o possível para dar sequência à vida, pois, justamente por acreditar na tese da expiação, confiava que nada aconteceria consigo e com os seus se mantivessem a correção.
43 dias, 12 horas, cinco minutos e sete segundos após o início da catástrofe, repentinamente terminou a carnificina. O comando militar pode detectar a vertiginosa queda de óbitos no começo da tarde. Os meios de comunicação anunciavam a esperança. No dia seguinte, mantida a tendência, São Paulo, mesmo arrasada e ainda cheia de temores, estava em festa. 360.667 mortos pela mosquinha – mas esse número somente nós conhecemos; oficialmente se contabilizava algo em torno de 900.000 óbitos, um tanto pela incapacidade de aferição, outro tanto pelas mortes colaterais. Nenhum deles prestava –concluiu a população. O mundo não entendeu patavina e nunca entenderá nada – mas o alívio foi globalizante.
Bem, e o que aconteceu com a mosquinha? Simplesmente ela não contava com tal número de maus irremediáveis numa única cidade. Pelo cálculo proporcional de seu programa, custa-lhe-ia o total de 354 anos para acabar com a festa da ruindade do mundo. Ela precisaria ser centenas de vezes mais rápida para a tarefa caber em seus míseros oito meses de vida (lembrem-se de que era uma supermosca, não dessas vagabundas que duram meros três dias). Recostou-se nas reentrâncias de uma enorme merda humana e disse a seu séquito:
– Cansei. Farei apenas um trabalho de manutenção local. Ao menos limpei o mal da minha terra. Agora quero apenas fornicar.
Ao ouvirem isso, as moscas excitadas candidatas à copulação formaram em torno dela uma espiral no ar, e passaram a traçar evoluções radicais para a seduzir. Foi quando uma estranha figura saiu de dentro do rio Tietê avançando passo a passo na direção daquela zoeira, enquanto a água ainda escorria pelas reentrâncias do seu corpo amassado. Era o super-sapo. A mosquinha vibrou suas asas em sinal de alerta e seu exército pousou num átimo a seu redor, pretejando toda a merda e adjacências. O momento era tenso, as pernas da mosquinha tremiam, mas disfarçava.
– A que devo a nobre visita?
– Você brincou com a vida humana, e vai pagar por isso.
– Por eu ter limpado a cidade dos malfeitos malfeitores?
– Malfeitos, não, dos bem-feitos malfeitores.
– Só matei os que não prestavam.
– Além de milhares de outros, como consequência.
– Numa guerra, é impossível preservar todos os inocentes.
– Não se trata apenas da morte de inocentes, nem mesmo da destruição da cidade e dos irrecuperáveis prejuízos econômicos. Você interferiu no equilíbrio.
– Por oferecer uma vida mais tranquila aos justos e trabalhadores?
– Por destruir a sua defesa. Uma nova geração de maus ainda mais terrível surgirá em poucos anos, além dos tantos que já chegam de fora e encontram espaço livre.
– Quanto a esses de fora, reconheço o meu erro. Talvez devesse voltar ao trabalho e dedetizar todo o Estado. Porém, aí o problema apenas ganharia outra dimensão, que se resolveria somente extinguindo o mal do mundo. E concluí que não tenho condições; errei nos cálculos, não esperava encontrar tantos homens maus. E por mais que eu fornique, não faço herdeiros com poderes.
– A defesa institucional da cidade está enfraquecida e melindrada. Do simples policial até o juiz, todos têm medo de cometer qualquer injustiça. Temem ser punidos por Deus. O excesso de gentileza não põe limites às várias espécies de maus que, em sua avaliação, não foram merecedores da pena de morte – na verdade, ninguém mais tem limite. A sociedade perdeu as rédeas, os mal-intencionados agora vivem livres fazendo o que querem. Os forasteiros, num piscar de olhos, arregimentarão batalhões de meio maus (como você julgou), e brevemente tomarão conta da cidade. A culpa entre os bons, ou meio bons, ou quase bons – como quer que você chame –, impede qualquer reação espontânea de rigor e ordem; os homens de bem estão traumatizados, até uma mera multa de trânsito se receia aplicar. E os bandoleiros ainda contarão com um ambiente propício para a reprodução: os hospitais estão lotados de doentes mentais, as ruas, de alucinados; o desemprego é generalizado ante a falência das empresas, sobretudo das pequenas, pelo uso de overjamping indiscriminado.
– E o que mais, querido?
– Continue zombando, seu mísero esquizóforos, sua cabecinha te impede de entender as ramificações e decorrências da culpa – as igrejas sabem muito bem disso e em breve também tirarão proveito. Os empregados fazem o que querem com os patrões. E esse empregado sem limite trabalhista – falo por suposição – não chama a atenção dos filhos temendo ser rude, e esses adolescentes, por sua vez, não obedecem nem a ele nem a qualquer professor ou ordem hierárquica. E agora vem o pior: dessa geração de jovens, que você contemplou com o generoso perdão, sairá o mau muitas vezes fortalecido diante de uma sociedade flácida e complacente, que será submergida. Isso tudo sem contar com o efeito dominó dessas futuras organizações criminosas em todo o Brasil e, quem sabe, no mundo – São Paulo era um pilar respeitável na harmonia do nosso planeta.
– Caguei. E agora?
– Primeiro eu quero apenas me vingar de tanta estupidez que só poderia ter saído do avanço tecnológico de um inseto desprezível. E, claro, evitar que você tenha outra grande ideia.
Assim que terminou, pôs sua língua pra fora, em posição de ataque marcial. A mosquinha logo assobiou, dando ordem para o ataque. Milhares de moscas partiram pra cima do sapo que, com sua língua superveloz, rebatia como fosse uma raquete todos os ataques, lançando moscas estilhaçadas a muitos metros dali. A última centena ele engoliu e lambeu os beiços. E a nossa mosquinha, nesse interregno, por que não fugiu na velocidade da luz? Ela tentou, mas a língua do nosso novo herói a alcançou a vinte metros de distância e a recolheu em sua bochecha, sem ingeri-la. Quando a batalha acabou, num cuspe ele a incrustou de volta na mesma merda. Melecada de saliva sapiana, olhou para os lados e contemplou desolada todo o seu exército destruído, apesar de ouvir com sua superaudição o zumbido de uma única mosca, talvez ferida, talvez sufocada.
– Por que não me matou?
– Eu preciso de você.
– Não tem saída. Já disse, caguei, o que quer que eu faça?
– Você vai voltar ao trabalho, e agora matará 360.667 pessoas genuinamente boas de São Paulo. Não deve sobrar nenhuma. É a única forma de recuperar, no futuro, o equilíbrio. Sem nenhuma piedade; um único remanescente poderá desequilibrar a balança. Você tem os mesmos 43 dias para a tarefa.
– E por que você não a executa?
– A minha índole é lenta.
– E se eu fugir?
– Convocarei os sapos mais poderosos de todo o mundo para acabarem com todas as moscas. Assim você jamais fornicará. Mas se você conseguir trabalhar ainda mais rápido, reduzindo o tempo final para um único mês, dar-lhe-ei essa recompensa.
E cuspiu uma mosca linda e gostosinha que guardava no céu da boca, que se cravou a seu lado na merda. E concluiu:
– Assim você poderá ainda viver aqui, debaixo da sua ponte, e começar uma nova vida. Agora vá.
A mosquinha, com os olhos radiantes, ainda falou imponentemente para a apaixonada mosca:
– Me espere que eu volto dentro de um mês.
E saiu como um raio.
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